terça-feira, 27 de setembro de 2011

Capítulo IV.I.III: Vou só ali e já venho



Com a típica calma de alguém que, na distracção de um assobio, ainda não se apercebeu que o guindaste tem o piano mesmo por cima de si, o Didelet escutou, com a atenção possível, o que a faia tinha para lhe contar, antes de dar a melhor resposta que a unicidade da sua lógica tinha para ofertar.

"Tenho fome. Onde é que se come melhor para estes lados?," perguntou a anafada massa molecular enquanto, com uma pancada seca no ouvido esquerdo, fazia saltar do ouvido direito um torrão ainda lá alojado desde a sua última queda em si.
"É com base nessa premissa que vais tomar a decisão do teu rumo?," procurou saber a árvore.
"Não, claro que não," retorquiu o Didelet. "Essa decisão já está tomada. Agora só preciso de saber onde posso saciar o apetite para saber para onde vou."

Fosse por percepção imediata da inutilidade que isso seria, fosse por fruto da experiência que anos e anos de existência vivida como marco lhe trouxeram, a verdade é que a faia decidiu nem sequer tentar compreender o nexo por detrás do raciocínio do Didelet. Ao invés disso, a árvore preferiu antes dar lugar ao pragmatismo.
"Bom, tens a Loja das Sopas às portas de À-dos-Horrores, que se encontra sob a gestão das Três Irmãs. Suponho que seja o estabelecimento de restauração mais próximo."
"Óptimo! Perfeito! Nesse caso, vou-me pôr a andar, que isto da fome tem tanto de contínua como de incremental," proferiu o Didelet, imediatamente antes de esboçar um movimento para se levantar e perceber, pelo estalar na sua espinha e pelo latejar de toda a sua estrutura muscular, que o tombo de há um bocado ainda lhe estava a cobrar juros.

Ao som de um ranger lenhoso, a extensa árvore estendeu o ramo que usa como braço direito à frente do Didelet e, cerrando o punho, deixou de fora apenas o toco que usa como mindinho.
"Toma. Arranca-me esse galho," rogou a faia com empatia. "Não te preocupes: voltará a crescer. É melhor esse galho vivo que qualquer um dos que já me caíram. Aguentará mais tempo viçoso e suportará melhor o teu peso."
"Sois por demais simpático," aquiesceu o Didelet enquanto, com uma torção, desprovia a faia de duas falanges.

Com um esforço herculeano, o espesso homem ergueu-se, desafiando cada fibra do improvisado cajado com a insustentável leveza do seu ser.
"Muito obrigado por tudo," reforçou o Didelet. "E as minhas mais sinceras desculpas por qualquer incómodo que lhe possa ter causado."
Com meia translação, o Didelet deu a volta à densa árvore e iniciou a sua diligente caminhada pela popa desta. "Até já."
"Até uma próxima," reenvidou a faia de forma mais perene, antes de soltar um último reparo.
"Vejo que optaste por À-dos-Horrores. Tens a coragem de muitos."
"À-dos-Horrores? Credo, não! Com esse nome, só se fosse doido é que seguiria nessa direcção. Não. Eu pensei melhor e vou para os Jardins da Babilónia. Abandonei a ideia de voltar atrás. Desconfio, para não dizer que tenho a certeza, que aqueles tipos não jogam com o baralho todo. Só me iam estragar o sonho. Agora, vou só ali à Loja das Sopas matar a fome e já volto. Como disse: até já," categorizou com firmeza o Didelet.

A faia aguardou que mais uns custosos passos fossem dados antes de sorrir e erguer um braço e quatro dedos no ar.
"Até uma próxima," repicou novamente a faia...


(próximo capítulo: IV.II, com as restantes personagens)