quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Capítulo IV.I.II: A marcar passo



Num mundo de infinitos contextos, o detalhe é tudo. São os pequenos pormenores que, para além de servirem como o cimento e o tijolo da ambiência das cenas que definem, ajudam a edificar a lógica que lhes serve de alicerce.
Pessoas há, no entanto, que insistem em retirar tudo do contexto. Extirpá-lo daquilo que ele levou anos e anos a amealhar. Esperar por ele atrás de um arbusto depois de ele sair de um dia difícil de trabalho a dar significado às coisas, apontar-lhe uma faca à barriga das ideias e levar-lhe tudo o que ele tiver de valor sintáctico na sua posse.

Pessoas como o Didelet.

Referir que o Didelet é um ser que, para além de revestido de quilos e quilos de unto, também se encontra revestido de uma camisa com estampados de flores, uns calções de praia roxos e umas havaianas a servir de separador entre ele e o solo é um detalhe. Daqueles detalhes que, se o contexto tivesse um carro e uma trela, seriam levados a passear à noite e abandonados ao quilómetro 117 da auto-estrada mais próxima.

Referir que uma árvore se encontra a falar com o Didelet é algo que estabelece a lógica mais imediata. A mais imediata e a mais óbvia mas, como se irá percebendo aos poucos, de óbvio a cognição do Didelet não tem nada.
A cognição do Didelet é das poucas em todo o Multiverso que consegue olhar para isto...


... e perguntar quem é o tipo de chapéu e cachimbo escondido atrás do elefante.

Seguindo essa sua tendência intrínseca de ignorar o raciocínio mais à mão e de mandar vir as suas próprias conclusões lá de fora, o Didelet recostou-se ainda mais no tronco e assumiu, com toda a naturalidade, que quem estava a falar com ele era não a árvore, mas alguém escondido no cimo desta.

"Peço desculpa, caro amigo, mas estou muito cansado e a sombra desta árvore pareceu-me convidativa," disse o Didelet com a eloquência de um bêbado que ainda não se habituou a esse novo estado que é o de estar sóbrio. "Porque é que não desce daí e se junta a mim aqui em baixo? Talvez até me possa ajudar a perceber onde estou."
"Aí em baixo?," indagou respeitosa e momentaneamente a faia antes de perceber o mal-entendido. "Oh, meu pobre mamífero, mas tu julgas que tenho alguém na minha copa a dirigir-se a ti? Não, pequenino: sou eu mesmo o teu interlocutor. Fazemos assim: podes manter-te aí mais um pouco enquanto descansas o corpo e rearranjas essas ideias." Uma pequena pausa para esticar os ramos. "És novo aqui no reino, jovem? Como te chamas?"
"Didelet, para os amigos," afirmou o Didelet. "E para os outros também, agora que penso nisso. E sim, sou novo aqui. Mas só até acordar."
"Prazer em conhecer-te, Didelet. Podes chamar-me Marco, se assim o desejares. Marco não é o meu nome, mas marco é o que eu sou. Algo que apreenderás com o tempo é que não existem placas nem nada de similar aqui que te dê direcções e rotas a tomar. Existem, isso sim, entidades lenhosas, como eu, estrategicamente plantadas ao longo das estradas principais. É só uma questão de nos perguntares e nós dizemos-te tudo o que geográfica e demograficamente precisas de saber. Bem melhor do que fazeres algo de tão impessoal e desenxabido como ler uma placa, não concordas?"
"É. Diz que sim. Bom, assim sendo," declarou o Didelet, "qual é o caminho de regresso ao casebre do ancião Verni? É que eu sei que isto é um sonho, mas esqueci-me de sonhar para onde é que isso fica..."
"Verni? O velho Verni? Hum. Está explicada a tua presença aqui, então. Vieste dali," depôs a faia de ramal apontado a uma zona de arvoredo com aspecto de terra de ninguém. "Tu vieste a voar, meu rapaz. Sem asas e sem trem de aterragem. Não deves estar muito longe do local de onde foste canhoneado, mas olha que voltar atrás de pouco te vai servir. Se bem conheço o Verni, a sua pequena "casa de campo" deve estar impenetrável a acessos do exterior. Irias apenas dar de caras com um grande descampado e todo um punhado de tempo perdido. Podes ir lá na mesma, se assim pretenderes. Para isso, basta tomares o caminho mesmo à tua frente. A uma poucas dezenas, talvez centenas de metros terás uma curva à direita que te leva a passares em anexo a uma clareira. Pela tua trajectória anterior, presumo que seja aí que Verni tenha assente arraiais. Agora, e já que estou com a voz activa," prosseguiu demarcadamente a castaneácea, "posso dizer-te para onde te leva o restante desta bifurcação. Ora então: aqui à tua direita, e a sensivelmente um dia de caminhada, tens os Jardins Suspensos da Babilónia. Suspensos porque os semi-deuses decretaram a sua suspensão após terem ajuizado que os jardins não reuniam as condições mínimas de segurança das pessoas que os visitavam. Digo-te já que a Babilónia ficou pior que estragada com isso. Aquela mulher sabe guardar rancores como ninguém. À tua esquerda, tens... bom, não tens nada. Assim de repente, lembro-me de um morro e pouco mais. E um riacho. Acho que há um riacho também. E um moinho. Se bem que acho que já ninguém habita ou trabalha naquele moinho. Enfim... por fim, atrás de nós, tens a vila de À-dos-Horrores. Não te sei dizer é a quanto tempo ou a que distância. O tempo é... incerto para aquelas zonas. E é um arrabalde perigoso. É só o que te digo. Tem muito cuidado se enveredares por aí..."



Didelet, o Narrador procura saber:

Qual a tua decisão perante o que te foi apresentado?

Submete a tua decisão por comentário ou, caso não pretendas dar a conhecer a tua intenção a terceiros, submete por email.
És livre de optar por não fazer nada e, aí, estás por minha conta.

Para efeitos de intrigas e conspirações, o email contameumaestoria@gmail.com permanece sempre ao teu dispor.

4 comentários:

cs disse...

como faz estas caixinhas de musica tão bonitas?

:))

grassa disse...

Ora essa, não tem nada que saber.

Deixo-lhe aqui o código que tem que pôr no post.
É só copy, paste, e algumas adequações mínimas.
Ali onde diz "MP3_AQUI", é só colocar o link do MP3 que quiser pôr a tocar (exemplo: http://musica.mp3).


De nada. :)

A disse...

isto tá muito aborrecido. e tu és demasiado simpático quando pensas que não estamos a ver, grassa.

grassa disse...

Hei-de continuar com isto.

Mesmo que vocês não continuem.
Tenho ideias demasiado boas para deixar isto morrer...