quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Capítulo II: Selecção factícia



Ainda entorpecidos pela comoção, e já com o velho fora de mira, os onze elementos do recém-ajuntado grupo lá foram saindo da inércia e reagindo, cada um ao seu modo.

O Pwfh indagava-se do porquê de os seus pés não se encontrarem em contacto com o solo.
A sua posição horizontal e em pleno voo estremunhava-o ainda mais.
E o que era aquilo que lhe embateu em cheio no queixo? "Seriam... nós de dedos?," inquiria-se o Pwfh, imediatamente antes de aterrar dolorosa e cabeçudamente no solo junto a um dos tentáculos do molusco avivendado.
Por cima da sua face e da poeira mal assente criada pela sua queda surgiu a alegre carranca da Anna.
"Voltas a fazer um remoque envolvendo o meu rabo e um qualquer utensílio de carpintaria e eu conto-te uma estória, meu menino," declamou a Anna com um dedo acusador colado ao nariz do Pwfh.
Soltando um combinado entre gritinho de espanto e lhano sorriso, a Anna deu um carinhoso beijo na testa do anão e seguiu numa execução fisioterapêutica do Hula do Rei Leão em direcção à choupana.
Com uma festa na ombreira da porta acompanhada de um "Bicho lindo", a rapariga desapareceu opacamente na escuridão da entrada.

"Estranha rapariga," pensava-se generalizadamente entre os que sobraram no exterior, tirando o Pwfh, que em vez de "estranha", adjectivava a Anna com algo bem mais brejeiro.

"Não sei se partilham desta minha opinião, mas julgo que devíamos tomar entre mãos uma acção em tudo semelhante àquela que aquela moça acabou de tomar. Ou seja, entrar naquela casa, quanto mais não seja por estarmos todos movidos pela curiosidade e desejarmos, no fundo, saber exactamente o que está aqui em decurso," discursou enfaticamente o Didelet que, pela altura em que terminou, já só se encontrava no jardim com uma adormecida Player1331.

Todos os restantes não haviam perdido tempo algum em avançar.
A promessa de um quentinho chá, a tal curiosidade que o Didelet apregoava e a desconfortável presença das duas criaturas do velho - especialmente a do imenso pássaro - formaram-se razões mais do que suficientes para que se progredisse.

O Pwfh havia-se elevado em três tempos do sobrado e seguido atrás da Anna, pontapeando a terra, balbuciando qualquer coisa num engrimanço só dele e soltando uma quantidade de gás flatulento suficiente para manter no ar um pequeno zepelim.

O Pato e a Mary Birth, sem que niguém percebesse muito bem como, já se encontravam longe do jardim e bem dentro da casa.

O Pete e a Cblues, como bons pseudo-apreciadores de chá, pseudo-encaminharam-se lado a lado para o interior do edifício.

O Man, esse, deu por si a ser soerguido por algo.
E "algo" era a descrição correcta.
Peles flácidas e escalvadas estigmatizavam-lhe a superfície reflectora.
Se o O Man tivesse olhos, estes estariam a implorar para serem cosidos a sangue frio.
"Que falta de classe e de bom senso," tagarelou o Tiagu para o espelho ensovacado debaixo do seu braço. "Deixar assim um espelho ao frio, para apanhar um resfriado. Tão pouco british destas gentes. Eu levo-o, meu caro."

O R2-D2 arrepiou caminho a passos confiantes, cantarolando entusiasticamente o tema principal do filme "Zorba, o Grego".
Um cântico que levou ao limite toda a estrutura molecular do O Man, que claramente ainda não tinha problemas suficientes a assombrá-lo.

Sentindo-se só, e de sobremaneira apatetado por estar a falar para o boneco, o Didelet apressou-se para a palhoça, fechando estrepitosamente a porta atrás de si.

A Player1331 escolheu precisamente esse instante para acordar, ainda a afogar o berro que a visão do Pato havia iniciado.
Ainda foram necessários alguns segundos para que ela desse conta que se encontrava esparramada de bruços no pavimento.
A sua primeira tentativa de arrimo foi acompanhada de uma fria e pegajosa sensação, sensação essa fruto de um frio e pegajoso tentáculo que se enrolava em torno da sua perna esquerda.
A Player1331 soltou novo berro e arrastou-se no solo para trás, movimento esse que, para além de a soltar com sucesso do apêndice do polvo-choupana, a levou a chocar de costas com o varano.
"Ele só te está a tentar levar para o seu interior, para ao pé dos teus amigos," afirmou o jovial varano.
"Eles não são meus amigos," articulou com o olhar na vertical a Player1331, "são... e tu és... Tenho sono. E cheira-me a bolachinhas."
"Sim, bolachinhas. E chá também, pelo que me constou. Tens o teu quinhão à tua espera. Eles já lá estão dentro. Devias ir andando, sem mais delongas."
A Player1331 olhou no sentido da casa. Viu o Pete a perscrutar à janela. Voltou a olhar para o varano. Viu o varano a sorrir de forma ainda mais ampla. Voltou a olhar para o Pete. E de novo para o varano.
"Bom, então acho que vou andando, não é? Não os quero deixar à espera mais do que o necessário," parolou incomodamente a Player1331, enquanto se dirigia em passo de caranguejo para o colmado.

A entrada da Player1331 na cabana coincidiu com um sonoro "PWIP!" lançado pelo desproporcionado pássaro.
Um "PWIP!" que soou em tudo semelhante a um "Irra! Até que enfim que eles se foram!"

Não foi com grande admiração que o grupo constatou que a casa, no seu interior, desafiava as leis da Física.
Pelo menos, da Física que se conhece.
Por dentro, o rústico casebre dava ares de ser bem maior do que o que aparentava do exterior.
Todos entraram directamente para uma enorme sala de estar. Exactamente a meio desta, crepitavam uns quantos toros numa lareira de proporções e detalhe épicos.
Se neste mundo existisse uma Inglaterra, dir-se-ia que a decoração interior da casa era muito, muito vitoriana.
Num dos sofás que ladeavam a extensa mesa central - no canapé mais próximo da lareira - encontrava-se, aparentemente, mais uma das criaturas mitológicas do velhote.
Sentada no quentinho, servida com um belo pires de natas, encontrava-se uma mulher-gato.
Ou uma gata-mulher.
Enfim: um Gato das Botas mas na versão feminina da coisa.
Uma Gata das Botas que todos sabiam apelidar-se de Anatcat.
Como é que cada um deles sabia o seu nome, isso era-lhes um mistério.
E da mesma forma que sabiam o epíteto da felina rapariga, tomaram nota de que tinham o conhecimento de cada um dos epítetos dos outros indivíduos do grupo.

"Não pensem mais nisso que não vale a pena. Fui eu que tomei a liberdade de vos colocar na cabeça os nomes dos restantes que vos acompanham. Assim, aceleramos um pouco mais as coisas e evitamos aquela situação sempre aborrecida de se apresentarem uns aos outros," revelou o velho, que se encontrava firmado na única poltrona na divisão, a poltrona que encabeçava o semicírculo de sofás.

Ninguém contestou esta projecção de poder do ancião, assim como ninguém contestou o facto de a Mary já se encontrar a inspirar as cinzas do soalho junto à laje da lareira.

"Anna. Onde... está... a... Anna?," espumejou o Pwfh entre um traque e duas bufas em si bemol.
"Ah, a espirituosa e doce Anna. Ela entrou aqui esbaforida a pregar que se estava a sentir imunda e que estava a precisar de tomar um bom banho. Deixei-a ir-se aprumar. Ela juntar-se-á a nós daqui a nada."
O Pwfh ainda impôs um passo irritado na direcção do único corredor que saía do compartimento.
O velho acenou para um dos sofás e enunciou calmamente: "Acalma-te, rapaz. Senta-te aí e relaxa um pouco."
E O Pwfh deu por si a soltar um perplexo "Mas o que..." e a sentar-se relaxadamente no sofá.

"Hum... tenho um tal de "Nojento" em mente, mas não estou a conseguir associar o nome a nenhum de nós. Quem é o Nojento?," perguntou o Didelet de por detrás de um dos assentos estofados.
"Ainda bem que perguntas. O Nojento é o senhor que vai entrar agora por ali," asseverou o velho, apontando para a janela à sua direita.

Através de uma ribombante explosão de vidro e lascas de madeira, a janela rebentou para dentro e o Nojento entrou em cena, chocando violentamente contra a parede oposta.
Impávido e sereno, o velhote esperou que a tropelia de pó e cascalho amainasse antes de aconselhar que "Provocar o Uasou não foi a mais sábia das decisões, Nojento. Ele é uma ave muito temperamental."
O Nojento nada disse, limitando-se a cuspir um dos caixilhos que se lhe havia atravancado na boca.

"Concluindo a réplica à tua questão, Didelet, o Nojento é, tal como ali a Anatcat, parte integrante do vosso montão. Era, até há bem pouco, o elemento em falta. Com ele, o círculo dos treze está agora completo." O velho pausou para esquadrinhar o renque de onde, supostamente, a Anna viria a surgir. "E enquanto a Anna não regressa do seu duche, podemos, talvez, ir bebericando um chá. Quando ela chegar, conto-vos tudo o que desejam e precisam de saber. Sentem-se, sentem-se. Cordon, traz-nos o chá, por favor."

Da ala, emergiu uma figura deveras sui generis.
Cordon, um hipopótamo bípede de pose aristocrata, ostentava um fardamento de mordomo. Para além de uma área e um volume matematicamente incalculáveis, Cordon apresentava ainda uma mui tratada e farfalhuda bigodeira por cima da mandíbula superior. É como se o paquiderme tivesse comido os Três Mosqueteiros e tivesse deixado de fora apenas o bigode do Aramis.
Na pata direita, transportava uma vasta bandeja prateada com um bule ao centro e mais de uma dezena de chávenas equitativamente distribuídas em seu redor.
Na pata esquerda, outra bandeja prateada mas de menores dimensões transportava um prato com uma pirâmide de bolachinhas equilibrada com grande mestria.
"Este é o Cordon, o meu auxiliar mor. Já tiveram, lá fora, a oportunidade de conhecer o Uasou, o Omell e o Bivaldi, do qual estão agora dentro. E não se preocupem com o facto de estarem dentro de um ser vivo. O Bivaldi não vos vai digerir nem nada que se pareça. Ele é um ser mágico. Está acima de necessidades básicas como o comer, o beber ou o dormir. Cordon, toma a liberdade de servir os nossos ilustres convidados."

Com um encolher de ombros, o massivo servente colocou a bandeja com as bolachinhas no centro da grande mesa.

A grande custo, o Nojento sentou-se na ponta do sofá mais próximo, ainda a limpar da roupa e do cabelo as puas e os estilhaços que sobejavam da sua entrada.

Do flanco oposto à janela, junto a uma estante composta com uma mini-biblioteca, o Pete pronunciou-se: "Por acaso não teria nada de Proust, não?"
"Julgo que sim. Vê aí na terceira prateleira a contar de cima, à direita," narrou o velho.
"Já vi. Não está cá nada."
"Vê outra vez."
"Não está cá nada. Já verif...," dizia o Pete, enquanto olhava abespinhado para a lomba do "À la Recherche du Temps Perdu" de Proust.
"Hum. Engraçado. Ia jurar que tinha corrido todos os livros desta fileira... Mas óptimo. Nunca se deve beber chá sem se ler uma boa folha," expôs o Pete, enquanto sacava do livro.

Nisto, entrou na divisão a Anna, envolta num imenso toalhão e com uma toalha enrolada em volta do cabelo. "Aaaaahhh, nada mais salutar do que um bom banho, daqueles com sais de banho e assim, para edificar de novo as forças. E vocês não vão acreditar, mas a banheira do velhote é enorme! Daquelas redondas e com espaço para toda a família. E mesmo assim consegui encher aquilo com mais espuma do que água," debitou incessantemente a Anna para uma plateia que se manteve sisuda.

O Pwfh tentou pular do sofá rumo à Anna.
"Quezílias agora não, por favor," exprimiu o velho que, com um gesto sereno, atarraxou o anão Seagalês ao enchumaço do assento. "Toma antes um chá. Que tal?"
O Pwfh ainda se convulsionou, mas sem qualquer efeito prático.
De estrebucho irrisório, o Pwfh resignou-se.
"O chá é uma paneleiragem para meninas e cabrestos. Tragam-me antes umas folhas de chá e uma mortalha."

Cordon deu a volta à mesa interpelando, um a um e cada um, sobre qual o chá que desejavam, deixando o grupo estupefacto com o facto de todos os diferentes chás estarem a ser servidos a partir do mesmo bule.
Magia era algo a que o grupo ainda não estava, claramente, habituado.

Com Anatcat já servida, o mordomo serviu aos restantes chás das mais diversas cores e sabores.
Chá preto.
Chá verde.
Chá branco.
Chá transparente.
Chá às bolinhas amarelo-torradas, para o R2-D2, que alegava ser essa a cor que a equipa da Hungria utilizava nos Jogos Sem Fronteiras.
Chá de alho, para o Pato.
Chá de limão, bem esquentado, para a Cblues, mais habituada - dizia ela - ao clima quente de Miami.
Chá de café, para o Pete.
Chá de Rooibos e Gingko Biloba para o desnudado Tiagu, que foi forçado, para muito lamento seu, a repetir quatro vezes o nome do seu pretensioso chá.
Chá de "Não sei, senhor mordomo, se já reparou que eu sou um espelho, não tenho boca, por isso deixe lá o chá, muito obrigado?" para o O Man.
Chá mon para a Mary, que se arredou de ao pé da lareira para a periferia de Cordon para receber deste a sua xícara.

"My God, mas que falta de gabarito. Cordon, onde está a minha colher de chá? Isto é uma colher de café," apontava cinicamente o Tiagu com a colher erguida.
"Sempre pode mexer o chá com isto," acentuou o R2-D2, estendendo um vibrador na direcção da desataviada socialite.
De túnica aberta, o R2-D2 exibia toda uma imensidão de artigos chineses emplastrados no forro.
Do vibrador, entoava uma melodia rica em obscenidades, uma melodia digna da Tourettice da própria Mary.
Chocado, o Tiagu recusou veementemente o brinde, mas não os orgasmos.
Quais orgasmos?
Ora, os três orgasmos que teve logo de seguida e apenas em trinta segundos, e que tentou, sem sucesso, disfarçar, apesar dos imensos esguichos que de si borbotavam para cima da pirâmide de bolachinhas.
Coincidência ou não, mais ninguém tocou nas bolachas depois disso.
E as digeridas até então foram mantidas a custo nos respectivos estômagos.

Cordon serviu uma última xícara de chá, sem que ninguém tivesse efectuado qualquer pedido nesse sentido.
Percebendo que o escopo era o velho, a Mary antecipou-se ao criado e agarrou na chávena. "Deixa estar, eu entrego esta. Escroto. Escroto! Pila pila c-c-coelhinhos de chocolate de leite!," anelou de permeio de um sorriso nervoso.
Sub-repticiamente, a Mary injectou no chá gramas de MD suficientes para drogar psicadelicamente uma manada inteira de búfalos.
"Isto deve chegar para o velho ficar com uma estrica jeitosa," pensou divertidamente para si mesma.
"Ora, muito obrigado, minha doce Mary. Muito simpático da tua parte," agradeceu o ancião ao receber a chávena das mãos de uma Mary de sorriso cúmplice.
Sorriso que se desfez quase de imediato quando o velho acresceu "E muito obrigado por já teres posto o "açúcar", querida. Mesmo ao meu gosto."

A Mary sentou-se encabulada junto de onde o O Man tinha sido depositado pelo Tiagu.
"Eu vi o que tu fizeste. Não foi bonito. E eu sou o teu pai," afirmou o O Man no seu tom Vaderesco.
Ou, pelo menos, foi isso que a Mary julgou ouvir.
De olhar desassisado e com as cinzas a começarem a bater, a Mary fitou o O Man e desbaratou um "Holly shit, damn, fuck, hell, fart, snail, pickle, jerk!"
De seguida, arremessou-lhe os sapatos e a xícara, aspirou o interior de um pequeno tubinho que trazia no bolso e colocou-se a dançar o twist junto, novamente, da lareira.

Com dois tragos bem dados no chá, o velho fez por não dar qualquer importância à forma de proceder da Mary e iniciou, lúcida e finalmente, o seu discurso.
"Permitam que, por fim, me apresente: o meu nome é Verni. Dou-vos o nome para que possam saber como se dirigirem a mim, embora nem eu nem o meu nome sejamos aqui a parte relevante. Aqui, o importante é vocês saberem quem são, porque o são e porque aqui estão. Para começar, o vosso aspecto. A vossa figura neste mundo mais não é do que a manifestação de como vocês gostariam de ser no vosso mundo. A vossa personalidade é uma mescla entre a personalidade julgada daquilo que aparentam e a vossa própria personalidade."
Todos se entreolharam.
Todos olharam em sincronia para o Tiagu.
Ninguém disse nada.
"A partir do momento em que tomaram consciência do vosso novo ser," continuou o velho, "o processo de assimilação do corpo em que agora se revêem foi quase imediato. Pode-se dizer que foi um período adaptativo quase instintivo. Aqui, vocês tornaram-se exactamente aquilo que aparentam."

O som do gorgolejo provocado pelo bebericar do chá por parte do Pete - o mesmo chá que lhe escorria para fora da garganta alanceada - encheu cavernosamente a sala quando o velho se emudeceu por mais uns breves momentos.

Sentindo que o velho estava a esconder algo, a Cblues tirou os óculos.
Como controladora de mentes, existia, para ela, sempre a possibilidade de o fervor de um momento subjugar o seu lado racional, e o seu controlo mental ser inconscientemente activado.
Os óculos eram o seu coador, a sua prevenção e protecção para segundos e terceiros.
A Cblues aguardou que o ancião estabelecesse contacto visual com ela e, sem que ninguém se apercebesse, tentou dominar a mente deste.
O velhote fitou-a durante um bocado, e depois esboçou um sorriso. "Precisas de alguma coisa, querida?," disse o velho para a Cblues, incólume perante a manipulação gorada desta.
Surpresa pela gritante imunidade do velho ao seu controlo, a Cblues propalou de forma desacomodada: "Quem? Eu? Nada, nada. Tenho é uma questão: porque é que estamos aqui mesmo? Hum, e Tiagu, cubra-se, por favor; é que já me está a ferir a visão periférica."
O Tiagu trejeiteou com desprezo a clara falta de grife e finesse da Cblues embora, e ao mesmo tempo, sentisse uma quase irresistível vontade de lhe bater palmas pelo impressionante desempenho dela no papel que encenou frente ao velho.

"Porque estão vocês aqui? Esse é que é o busílis de toda esta conversa. E em boa verdade, meus amigos, essa é a única pendência para a qual eu não possuo resposta. Sabem, o Universo desdobra-se de formas infinitamente misteriosas. E eu sou meramente o agente dele que, por estas partes, as sabe interpretar. Tenho uma falível concepção de qual o vosso desígnio nestas paragens, mas não vos quero induzir em erro. Longe de mim dar-vos uma ideia apenas para que esta se prove, mais tarde, como errada."
A desconfiança sobre se o velho estaria a dizer a verdade ou não era global.
Com mais um sorriso, o velhote aditou: "Sei o que estão a pensar, mas vejam a coisa deste prisma: seria muita presunção da minha parte eu assumir que sei tudo, não acham? Prefiro ajuizar que tenho sempre uma vaga noção das coisas."
O velho parou para sorver mais um gole de chá.
"Sei, no entanto, de alguém que grassa - assim presume ele - saber tudo. Mas já voltaremos a ele. Daqui a pouco. Por agora, quero esclarecer mais uns quantos pontos."

"Este chá é gourmet?," interrompeu o Tiagu, agradado de forma microscopicamente notória pela infusão que lhe foi servida.
"Não, Tiagu. Não é," suspirou o velho em palavras cansadas.
A resposta negativa incomodou o Tiagu de forma macroscopicamente notória, como era bem visível no ataque de possidonite que se lhe acometeu.
Um ataque que lhe descaiu ainda mais os sacos do Pingo Doce a que chamava seios.

Esta última imagem aterradora relembrou o O Man da repulsa atroz que sentiu no trajecto que executou na companhia forçada do Tiagu.
E do projecto que planeou levar a cabo.
"Verni, diga-me o ilustre de sua justiça: seria possível criar um fundo ecuménico de solidariedade para pessoas com pele flácida? O dinheiro pode vir da União Europeia," apiedou o O Man.
"União Europeia? Oh, meu caro, nós aqui não temos nada disso. Fazemos assim: eu coloco-lhe aqui esta bolsinha de couro pendurada nesta talha da sua moldura, e quem quiser pode colocar lá uma ou outra divisa de valor cambial. Moedinhas, vá. Esse pode ser o seu fundo de de solidariedade. O que acha?"
A face envidraçada do O Man manteve-se impávida, mas dava para perceber que o espelho estava ligeiramente amuado.

"Bom, e se calhar antecipo-me já às vossas próximas interrogações e aduzo-vos já as respostas," prorrogou o velho. "Vocês não se materializaram na minha propriedade. Eu não moro aqui. Aliás, a bem ver, eu não habito em lado algum. Podem considerar-me como que um errante. Eu simplesmente acompanho os pontos de "recepção" de entidades provindas de outros mundos. Sou eu que as inicio às suas novas realidades. Esse foi o papel que me foi confiado por quem gere este plano de existência. E enquanto que os pontos de "recepção" podem ser muitos e diversamente localizados, pontos de "envio" só existe um e determinadamente fixo. Se quiserem regressar ao vosso mundo de origem, é a este ponto que se devem dirigir. Mas mais vos digo: se vocês aqui estão, não é por um mero acaso. Todo e qualquer ente que aqui brota, brota porque alguém o convocou. Vocês foram todos convocados. Quase ao mesmo tempo e num mesmo ponto de "recepção". E convocados por um propósito. Vocês estão aqui para algo. Algo ao capricho de alguém. O quê e quem, essa é a tal resposta que não vos consigo ministrar. Eu não, mas, e como já tinha referido, conheço alguém que vos pode levar mais além no entendimento da vossa senda. É a ele que vos vou endereçar. Agora: têm mais alguma inquirição que me queiram colocar? Pensem bem, pois assim que eu vos puser no vosso caminho eu não estarei lá para vos ajudar..."



O Narrador procura saber:

Têm mais alguma questão de última hora a colocar ao ancião?

Submetam a vossa decisão por comentário ou, caso não pretendam dar a conhecer a vossa intenção a terceiros, submetam por email.
São livres de optar por não fazer nada.

Para efeitos de intrigas e conspirações, o email contameumaestoria@gmail.com permanece sempre ao vosso dispor.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Capítulo I: Todo um outro Mundo



Num minuto, está-se ao espelho a ajeitar o raio do colar cervical que teima em se desajustar.
No outro, estranha-se a bizarria de se estar a levar com uma leviana brisa na face, e de se ter o fofo tapete do chapéu de um sobrenatural e gigantesco cogumelo debaixo dos pés.

Num minuto, está-se a proceder à preparação de uma inversão cromossómica de glândulas salivares de larvas.
No outro, tem-se de frente, olho nos olhos, um copioso globo ocular fixo e intrigado na nossa pessoa, globo ocular esse que, assim que se afasta e permite vislumbrar a quem ele pertence, desdobra à nossa vista a irreal visão de um enorme varano apoiado sobre as duas patas traseiras.
Um varano que sorri para nós.

Num minuto, está-se a entrar numa sala de aula, ou a coçá-los numa Repartição de Finanças, ou a implementar um web service, ou a trabalhar arduamente no Museu de Ciência, ou a dizer ao chefe que a culpa não é dele, ou a puxar o autoclismo, ou a preparar o lanche, ou a jogar à bola, ou a tomar um café com o melhor amigo.
No outro, está-se arrebatado pela prodigiosa envergadura da gigantesca ave que sobre nós augura, uma espécie de aparição saída de um qualquer conto fantástico.
Um gaio, desmesurado, de largos metros de altura, de penas pintalgadas de cores que nem sequer se julgavam existir, e que parecem de cores totalmente diferentes a cada vez que se olha.

Tudo mudou num minuto.

E a casualidade banal de quem está habituado à real realidade deu lugar ao choque.
Onze individualidades perdidas num imenso jardim que, até agora, só existia na crendice do imaginário.
Um jardim com plantas exóticas, algumas delas ofendidas por estarem a ser espezinhadas por estes abjectos estrangeiros.
Com animais pródigos em excentricidade, pelo menos olhando para os dois que perante eles se manifestavam.
Os dois visíveis no momento.

Onze individualidades perdidas.
E sem qualquer consciência tomada sobre o que os cercava.

O Pete foi o primeiro a conseguir sair da catatonia, apenas para dar por si a olhar para trás em resposta ao som de passos em terra batida.

"Ah, óptimo, já chegaram," disse o ancião sobrevindo por detrás do grupo.
"Ora deixa cá ver: um, dois, três... dez, onze. Humpf. Falta o outro. Atrasado, como é seu apanágio."
O velhote, apesar das suas gastas e andrajosas vestes e de uma débil forma de se deslocar, punha os sentidos em alerta pela forma como mirava, com aguda e penetrante argúcia, cada um dos aparentes intrusos à sua moradia.
Um sorriso formou-se no rosto do velho.
"Mas que grupo mais esfarrapado que vocês me saíram. E cada um único à sua maneira. E isso é que é preciso. Bom, vá, venham lá. Entrem," pediu o velho, enquanto estendia uma mão em direcção àquilo que, supostamente, seria a sua choupana.

Todos olharam para a casa.
E a casa olhou de volta.
Queixos caíam e olhos esbugalhavam enquanto a criatura-casebre, uma espécie de cruzamento entre polvo e casa de colmo, desenleava os tentáculos por cima da porta e abria passagem para o seu interior.
Espera.
Aquilo não é a porta.
É a boca do bicho.

Ninguém se moveu dos seus sítios, tal era o arroubo anímico.
Ninguém a não ser a Anna que, com um passo em falso, deu por si a falhar os limites do chapéu do cogumelo onde se encontrava e a estatelar-se de cara no castanho dos torrões três metros abaixo.

A acalmia no semblante do velho deu lugar a uma terna impaciência. "Uf. Isto vai ser mais demorado do que eu esperava. Vocês ainda vão precisar de entranhar muita coisa. A começar pela vossa aparência."

Esta última sentença fez soar os alarmes da incompreensão em cada um dos elementos do grupo, que ainda nem sequer tinham tomado o tempo para perceberem quem exactamente é que os rodeava.

"AAAAAAAAAAHHH!," berrou o R2-D2 em aguçada voz, enquanto olhava horrorizado para o Pete.
"AAAAAAAAAAHHH!," gritou a Player1331 na direcção do Pato, e imediatamente antes de cair para o lado a ressonar.
"Aaaaaaaaaahhh?," exclamou interrogativamente o ignoto vampiro, que se encontrava lado a lado com o varano do sorriso afável.
"Aaaaaaaaaahhh," assentiu a Cblues, enquanto colocava os óculos de sol.
"Dude, curto bué da tua série, mas eu é mais o Las Vegas," explanou a Mary com voz esgazeada.
"Demis Roussos?," indagou-se o Didelet, de atenção focada no R2-D2.
"Esse também entra no CSI?," respondeu de forma distraída a Mary.
"Olha, o velhote tem um anão de jardim," disse a Anna, após erguer o rosto da terra argilosa.
"Anão de jardim é quem te fodeu a peida com uma verruma," invectivou espumante o Pwfh.
"Está fresquinho," proferiu o Tiagu.
"AAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!," berraram quase todos em uníssono, quando fixaram o olhar no horror repulsivo da nudez do Tiagu.
"AAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!," berraram quase todos em uníssono, quando fixaram o olhar nas próprias mãos.
"Decerto que o que está a acontecer deve ser deveras excitante, dado o volume dos bramidos dos que me rodeiam," declamou em voz asperamente grave o O Man que, enquanto espelho, se limitava a estar assente no solo e virado para o céu.

De braços tombados e de audível suspiro, o velhote virou costas e começou a estugar passo em direcção à choça cefalópode.
"Bom, levem o vosso tempo. Já percebi que ainda estão "lá", e não "cá". Depois entrem. Eu explico tudo. Ah, e tragam aí o rapazinho, que ele não tem pernas para andar," disse o velho, apontando uma mão renitente na direcção do O Man.
"Alguém quer chá? Vou fazer chá."



O Narrador indaga:

O que é que cada um de vós deseja fazer perante o cenário que se vos apresenta?

Submetam a vossa decisão por comentário ou, caso não pretendam dar a conhecer a vossa intenção a terceiros, submetam por email.
São livres de optar por não fazer nada.

Para efeitos de intrigas e conspirações, submetam um email para contameumaestoria@gmail.com.

Conta-me uma estória: as espectaculares personagens


A

A primeira vez que se atenta no A, diverge-se nas impressões que se tiram.
Uns vêem aquilo que o empirismo lhes dá na prática: um smiley, de um metro de diâmetro, redondo, amarelo e que voa pairando acima do solo com o seu estampado e constante sorriso.
Outros há que, de forma saudosista, relembram o velhinho Dot e ficam com vontade de adoptar o A.

Outros, os "tais", vêem aquilo que o A realmente é: ironia com forma tomada.
O A é, positivamente, o ser mais negativista do Universo e arredores e arredores dos arredores, o que, coadunado com o seu aspecto, é deveras espectacular.
Infeliz e depressivo, conta, qual corifeu da calamidade, sempre com o pior.
O próprio pior sente-se pior sempre que o A conta com ele.
Consta até que o próprio Nietzsche disse, uma vez, ao seu grande amigo Dostoiévski "Quem, o A? Fo#&-se, tu não me convides esse gajo para o churrasco que ele deprime-me."
E o Dostoiévski não convidou.
E no ano seguinte o A não lhe ofereceu prenda pelos anos que se f#&eu.

Esporádica e espectacularmente, o A gosta ainda de revelar os seus sérios problemas com a lógica e a razão de ser e de, nesses trâmites, se transformar numa televisão a preto e branco que passa reposições do Totobola.
Também esporádica, e ainda mais espectacularmente, o A gosta de predizer o futuro, esse 1x2, como se fosse um programa do Totobola.
O Totobola acaba, ao fim e ao cabo, de andar muito de mãos dadas com o A.
Pois, afinal de contas, o que seria do Totobola sem o A? Um Totobol?
Talvez.

E dizem as boas línguas que os opostos atraem-se.
Dizer, dizem, mas nada podia estar mais longe da verdade no que ao A concerne.
É que o A encontra-se garantido e certificado na arte de conseguir atrair nada e afastar tudo.
E todos.
E tudo.
E com um sorriso nos lábios.
Mas só nos lábios, mesmo.



AD (perfil submetido pela próprio)

Apreciador de medalhões de ouro, camisas de colarinhos pontiagudos e calças de boca-de-sino, ele é o homem que nenhum deus espera e que ninguém anseia conhecer.
Ele é o homem do microfone nas feiras. Ele é o homem dos carrinhos de choque nas outras feiras. Ele conduz um Panda. Não um Fiat, um urso.
Ele é o homem que não tem medo de desafiar convenções sociais. "Fisicamente imponente," diz ele. "Raquítico," diz a sociedade. "Sex symbol," avisa ele. "Eh pá, não...," diz a sociedade.
Ele é o homem que nega veementemente as acusações de bipolaridade, primeiro rindo-se delas e depois chorando compulsivamente por ninguém o entender.
Ele é o homem que detém os poderes apenas sonhados pelos outros. Que poderes, perguntam vocês? Que tal o poder da locomoção a velocidades moderadamente baixas? Correr, dizem uns. Passo estugado, dizem outros. Poderes, diz ele.
Ele é o Zorro da espada partida, o Batman da capa desbotada e rota, o Super-Homem anémico.
Ele é o pior pesadelo das pessoas que têm pesadelos muito fraquinhos.



Anatcat (perfil submetido pela própria)

Anatcat é assim uma espécie de Gato das Botas, mas no feminino.
Isto, claro está, no Inverno.
No Verão, é mais cat de sandaloca de salto alto.
Como todo o bom felino, adora natas, sendo essa toda a sua razão de viver - um pires de natas.
Isso ou Whiskas saquetas.
Gosta de dançar salsa e tango argentino.
Nos intervalos das sestas, ouve Metallica ou transforma-se na Madonna e dá concertos aparatosos com montes de bailarinos para 100.000 pessoas, em playback, já que mia bem mas desafina como gente grande.
É muito querida porque tem muito mau feitio.
Faz ffffssss e ronrona, tudo ao mesmo tempo.
A cor da pelagem é um tipo de dourado mesclado, mas quando quer consegue imitar outros gatos - pode ficar daqueles tigrados ou daqueles a preto e branco.
Sendo ela própria uma "super-heroína" é, também, e na verdade, o animal de estimação perfeito para qualquer outro "super-herói".
Isto porque os gatos é que são os donos dos seus próprios donos, n'est-ce pas?



Anna


A Anna é o contrasenso do comum estereótipo da tipa boa: é boa e é inteligente.
Pelo menos, é isso que ela apregoa à boca cheia (entre outras coisas à boca cheia) lá do alto do seu metro e meio.

Para além do espectacular facto de ter um par de énes no meio do nome, a Anna manifesta, no seu seio, outros espectaculares pares de atributos.

Entre estes, contam-se os seus inúmeros problemas de identidade, problemas como: não saber exactamente quem é; ou saber exactamente quem é; ou julgar saber exactamente quem é; ou não julgar saber exactamente quem é sabendo de antemão que sabe quem é no pequeno pormenor de não saber exactamente quem é.

Outros atributos da Anna com dois énes incluem:
- a espectacular capacidade de fazer parar o trânsito, especialmente se estiver sinal vermelho para os carros;
- a espectacular habilitação de deixar um homem boquiaberto, em particular após um chuto nas partes baixas deste;
- a espectacular propensão para um andar curvilíneo e sensual, em especial para os adeptos da cinesioterapia.

Há mulheres que nascem para se formarem autênticos aviões.
No caso da Anna, calhou-lhe o Boeing.
747.
De largo compartimento de carga.



Cblues

Existem homens que nascem no corpo de uma mulher.
Existem mulheres que nascem no corpo de homens.
E depois há a Cblues, uma mulher que nasceu no corpo de um Horatio Caine.

Os Horatio Caines, para quem não sabe, são mamíferos bípedes que habitam no planeta CSI: Miami.
São normalmente identificáveis por ritos comportamentais como o estarem constantemente a tirar e a pôr os óculos de sol, o colocarem-se de lado quando estão a falar com uma pessoa, o espreitarem por cima do ombro quando estão a finalizar uma sentença e, aquele que é considerado o mais importante de todos os ritos, o fitarem o horizonte enquanto colocam os óculos de sol, dizem uma frase-chave e se põem a andar dali para fora.

Para além de uma mui sui generis forma de transsexualismo, a Cblues revela capacidades que um normalíssimo Horatio Caine não possui.

Capacidades como o dom da representação, por exemplo.

Ou como um idiossincrásico controlo sobre a mente - idiossincrásico no sentido de o controlo sobre a mente da outra individualidade só ser efectivo se a outra individualidade for intelectualmente fraca como, digamos, um benfiquista.

Ou como o seu bojo para constatar o óbvio.

Ou ainda como a capacidade de possuir capacidades.

E isso é espectacular.



Didelet

No que trata a embrulhar personalidades numa salsada de uma pessoa só, o Didelet encontra-se no patamar cimeiro.

Com a aparência física de um Pai Natal em roupagens informais, a calma e a sensatez de um Gandhi sob o efeito de bebidas alcalóides, o discurso articulado de um Yoda disléxico e o carisma de uma Barbra Streisand, quase que não sobra espaço para a sobremesa neste banquete de múltiplas facetas: a esquizofrenia.

Mas não uma esquizofrenia qualquer!
Psicoses qualquer pessoa pode ter.
E este menino foi muito mais selectivo na forma como elegeu se dissociar psiquicamente da realidade.
Este menino optou por sofrer patologicamente de uma psicopatia de natureza gramatical.
A este menino, a única que lhe faz saltar a mola é a referência a palavras homónimas.
Ou seja, muito cuidadinho com o sentido ambíguo dos vossos vocábulos na presença do Didelet.
É que toda e qualquer alusão dessa natureza pode levar este menino a entrar num frenesi assassino e indiscriminado.

O que é extremamente fofinho.
E espectacular.



Drake (perfil submetido pela próprio)

Rápido.
Furtivo.
Fresco.

Quem conhece Drake conhece o seu potencial como assassino. Isso e o cheirinho a menta que ele deixa no hálito.

Proveniente de uma longa linhagem de rebuçados assassinos, Drake é um mestre na arte do sufoco (quem já não ficou com uma drageia entalada no goto?) e da cegueira (levar com um rebuçado no olho também não tem nada de positivo). Para além disso, Drake é especialista em higiene oral e não tolera mau hálito em seu redor, saltando direito aos lábios de quem seja, entrando na sua boca de modo a refrescá-la o mais rápido possível.

Para além do seu historial como assassino, Drake tem em si algo de “cavaleiresco”. Tem um grande sentido de honra, que nem um paladino, e também a devida falta de cuidado quando é necessário eliminar qualquer tipo de ameaça do mal. Assim, catapulta-se direito aos seus inimigos, qual pulga irrequieta, sem qualquer receio pelo seu tamanho e sem olhar a consequências.



Mary Birth

Falhada.
Insegura.
Manhosa.
Reservada.
Viciada em tudo o que possa ser considerado droga.
Com uma peculiar inclinação para andar sempre descalça.
Com um condão para a dança igual à de um cabeçudo do Carnaval de Torres Vedras.

E ainda estamos na lista das qualidades da Mary.

Muitos há que consideram a Mary disfuncional.
Dizer que a Mary é disfuncional é o mesmo que dizer que o Cláudio Ramos é verde.
Ou que a relva é gay.
Ou algo desse género.

E como se já não bastassem todas aquelas particularidades acima mencionadas, a Mary, esse caco humano, ainda sofre de síndrome de Tourette.
Este último é assim uma espécie de cereja funesta no topo de um bolo de excentricidades problemáticas.
Ou, como a própria Mary diria, "Foda-se merda cona!".
Nem mais, Mary.



Nojento (perfil submetido pelo próprio)

Um frango depenado e sem cabeça pode ser o alter-ego da minha personagem, algo em que me transformo sempre que vejo uma rapariga coxa (a minha perdição), mas com o detalhe de que o aparecimento deste meu alter-ego deve ser acompanhado com o som típico de um frango neste estado a bater no mármore da bancada do talhante do "Delicatessen"... um shláppp nojento.
Na minha "vida normal", era um operador de empilhador que sonhava um dia usar gravata e ter o seu escritóriozinho de 3,5 metros quadrados, isto até perder o emprego para um ucraniano vesgo "altamente qualificado" que se fala que lá nas Rússias era engenheiro de frio, mas que eu sei que, na verdade, estava desde os 17 anos na Serra Leoa a executar trabalhinhos sujos de mercenário.



O Man

O Man é um espelho que se chama "O Man".
Ou seja, é quase tão espectacular como um homem que se chame "O Mirror".

Isto, pelo menos, numa primeira análise.

É que atenção: O Man não é um espelho qualquer.
Mais do que uma mera superfície polida encastrada em mogno, O Man é, à boa imagem de um conto fantasista muito conhecido, um espelho que fala.

E atenção: O Man não é um espelho que fala qualquer.
Mais do que uma mera superfície polida encastrada em mogno que fala, O Man é, à boa imagem de um filme fantasista com recurso a paus Jedi, um espelho que fala com a voz grave e irrevogável do Darth Vader.

E ainda mais atenção: O Man não é um espelho que fala com a voz do Darth Vader qualquer.
Mais do que uma mera superfície polida encastrada em mogno que fala com a voz do Darth Vader, O Man é, à boa imagem de uma realidade portuguesa fantasista, um espelho que fala com a voz grave e irrevogável do Darth Vader e que tem, como alter-ego, o nosso pretérito Ministro das Finanças e da Administração Pública, Bagão Félix.

Ou seja, venham de lá todos e quaisquer homens que se chamem "O Mirror".
O Man é mais espectacular que qualquer um deles.



Pato

Quando se pensa em patos, qual é a primeira coisa que salta à memória?
...
Exacto: vampiros.

Neste caso, um vampiro verdadeiramente peculiar.

O Pato é um vampiro que quebra toda a lógica associada aos vampiros.

Para começar, o Pato é vegetariano: a carne causa-lhe náuseas e o sangue fá-lo desmaiar.
A sua iguaria favorita é a sopa de alho, e não poucas são as vezes em que é apanhado a fincar os caninos no tronco de um belo de um carvalho.

Depois, tem medo do escuro: adora, inclusive, um bom banho de sol.

Depois, e já no campo da personalidade, padece de um extremo egocentrismo e de uma irresoluta pertinácia, o que associado à sua memória de curto prazo pode tornar uma conversa com ele muito, mas mesmo muito exasperante.

A sua melhor e única amiga é uma ameba de cerca de dez centímetros que transporta consigo no bolso para todo o lado.
Esta ameba dispõe de uma particularidade ímpar: sempre que tosse ou espirra, ela cospe objectos aleatórios, objectos esses que podem ir de um simples botão a uma complexa bomba de longo alcance e com o temporizador nos dez segundos e a contar.
E, para mal dos seus pecados, a ameba aparenta estar ininterruptamente constipada sempre que se encontra fora do âmbito quente e reconfortante do bolso do seu dono.

Ou seja, no seu cômputo geral, o Pato é espectacularmente peculiar.
Ou peculiarmente espectacular.
Não sei.
Fica ao vosso critério.



Pete

À primeira cheirada, o Pete é apenas mais um árabe a quem cuja religião proíbe estritamente o asseio e a higiene pessoal.
À primeira vista, o Pete aparenta ser não um cadáver vivificado e já meio carcomido, mas sim apenas mais um árabe com mau aspecto.
À primeira lambidela, o Pete revela ter uma gustação em tudo semelhante ao paladar do suor dos tomates de um camelo.

Mas o Pete é muito mais do que isso.

Para aqueles que conseguem ir além do seu odor corporal, do seu aspecto e do seu sabor, o Pete revela austeridade e pose poética.
E para aqueles que conseguem ir à Wikipédia e pesquisar "Ahmad Shah Massoud", contemplarão que a sua figura vermiculada tem em tudo a semelhança física com o antigo Leão de Panjshir.
Nas suas palavras - ou, pelo menos, no som arranhado que emana da sua faringe lacerada - reverbera não só o fulgor incitante de um ingénito líder militar, como também a incisiva distinção de uma crítica a algo.

Sim, o Pete é um zombie afegão com pinta de pseudo-intelectual.
Mas é um zombie afegão com pinta de pseudo-intelectual que usa um pakul, o que o torna absolutamente espectacular.



Player1331

Descendente legítima de uma longa linhagem de 1330 narcolépticos com psicoses profundas, a Player1331 herda dos seus antecessores a mágica e antiga arte de... dormir.

Versada nos actos de ressonar, babar a almofada, rilhar o dente e ter sérios problemas em acordar de manhã, a Player1331 é a verdadeira mestre do não fazer nenhum.

Só está bem quando está a dormir, e quando não está a dormir está constantemente cheia de sono.
E quando está constantemente cheia de sono, não consegue andar em frente (o seu mecanismo autónomo de locomoção é uma autêntica homenagem ao caranguejo).
E quando não consegue andar em frente, rabuja por tudo e por nada.
E quando rabuja por tudo e por nada, depaupera-se muito rapidamente.
E quando se depaupera muito rapidamente, acaba por adormecer.

E como se este ciclo vicioso não fosse já o suficiente para intrincar a sua existência e a existência de quem a rodeia, a Player1331 enferma-se ainda com uma extraordinária (e não espectacular, como se pudesse pensar) esquizofrenia.
Se bem que a Player1331 prefere dirigir-se à sua esquizofrenia como "um montes de problemas mentais graves".
É que assim soa muito menos sério, e muito mais estouvado.

E toda a gente sabe que tudo o que é estouvado, isso sim, é que é espectacular.



Pwfh

O Pwfh julga que é o maior, o que, para anão, é, já de si, uma ambição para a vida.

Dizerem ao Pwfh que ele é apenas um sósia em ponto pequeno do Steven Seagal é fazer pouco dele.
Será, até e quiçá, o suficiente para o apanharem a morder-vos as canelas e a fazer roundhouse kicks aos vossos tornozelos.

Em boa verdade, as espectaculares particularidades do Pwfh falam por si.

O espectacular facto de ser intempestivo, inoportuno, inopinado, inusitado, intrasado mental e muitas outras coisas começadas por "in" dá a conhecer uma infinita e multifacetada capacidade para arranjar problemas onde os problemas menos o esperam.

A sua espectacular idoneidade para conseguir representar a mesma expressão facial de mil e uma formas diferentes revela-se um precioso trunfo no combate às rugas, conseguindo assim partir de uma guerra acesa de palavras para um debate animado sem criar um único refego na pele.

O seu espectacular manancial de artes marciais dá a possibilidade aos seus oponentes de um dia poderem dizer aos seus netos que "o avô já partiu a boca a um tipo que sabe karaté", ou "o avô já partiu a boca a um tipo que sabe kendo", ou ainda "o avô já partiu a boca a um tipo que sabe aikido".

E o mais importante e espectacular a reter sobre o Pwfh é o seguinte: a fonética do seu nome.
Dizer "Pwfh" ou deixar cair meio quilo de banha de porco no chão produz o mesmo som.
E isso é deveras espectacular.

Um último facto a reter sobre o Pwfh: o seu sério problema de flatulência.
Alturas hão-de haver em que se vão apanhar a vocês mesmos a dizer que há algo no Pwfh que cheira mesmo muito mal.
Nessas alturas, o mais provável é estarem certos.



R2-D2

Como uma cópia chapada do Demis Roussos, o R2-D2 apresenta-se como a prova viva de que é possível um homem vestir-se com carpetes, usar botas de cores brilhantes e ofensivas, cantar e falar com voz de falsete, usar meia Amazónia peitoral orgulhosamente de fora e sentir-se bem com tudo isso sem ser com recurso a drogas pesadas.

E aparentemente a esquizofrenia estava em saldos, pois o R2-D2 é a terceira personagem do grupo a padecer deste tipo de psicose.
Neste caso, uma aguda inclinação para assumir, por vezes, exactamente metade das vezes, o ego do Eládio Clímaco.

No seu todo, uma esquizofrenia numericamente muito certinha.
E muito Jogos sem Fronteirástica.
E muito Festival Eurovisão da Cançãozística.

Pontuação: R2-D2, doze pontos.
R2-D2, twelve points.
R2-D2, douze points.



Tiagu Grilu

O Tiagu é algo de espectacularmente metafísico.
Ou seja, o Tiagu consegue agregar num mesmo ser dois conceitos completamente impossíveis de concatenar: o conceito "Paula Bobone" e o conceito "toda nua".

Como é que o Universo não implode com a conjugação dos dois, isso é algo que nem mesmo o próprio Moita Flores consegue explicar.

Para além de uma natural apetência para sufixar todos os seus nomes com a vogal "u", o Tiago manifesta ainda outra natural apetência: o de ser naturalmente parvo.
Senão, de que outra forma se explica que um homem adulto e formado deseje ser a Paula Bobone toda nua numa jigajoga de quimeras?

De qualquer forma, o Tiagu acaba por ser o único elemento do grupo que evidencia um claro super-poder: o poder de criar em quem o vê na sua pele de Paula Bobone de carnes ao léu o exacerbado desejo de ter nascido cego.
E isso é espectacular.

Conta-me uma estória: o esboço da ideia


Jovens, vocês são leitores assíduos aqui do botequim?
Gostam de aventura e de um bom desafio?
Então o autor deste blog tem uma proposta para vossemecês: storytelling via blog!
"Storytelling?", perguntam vocês?
"Storytelling!", respondemos nós!
Uma maravilhosa fábula que se vai engendrando ao sabor dos caprichos das personagens.
E onde as personagens são vocês.

Basicamente, no final de cada post / parte da história engenhada as vossas personagens serão postas à prova e ser-vos-à solicitada uma decisão, opção ou acção.
E podem decidir, optar ou agir como desejarem.
Sem qualquer restrição.
Onde o único limite seja a vossa imaginação.

As vossas personagens serão, de igual forma, o que vocês desejarem ser.
Querem ser um gigante com narcolepsia? Seja!
Um golem cleptomaníaco? Seja!
Um pedaço de queijo? Duas ovelhas? Um olho em chamas? Seja!
Podem desenhar a personagem como bem entenderem.
Podem, até, e se assim o entenderem, dizer que a vossa única exigência seja que a personagem seja verde.
O critério é todo vosso.

E se alguém quiser entrar a meio do conto, pode fazê-lo!
Se alguém quiser sair a meio, pode fazê-lo!
Se alguém quiser mudar de personagem a meio, pode fazê-lo! Basta para o efeito dar a conhecer essa vontade por email (submetam a vossa vontade para o email contameumaestoria@gmail.com) e mencionar os trâmites da vossa nova personagem.
O autor do blog tratará do resto!

Atenção: é possível que venha a existir um número limitado de inscrições.
Tudo dependerá do número de interessados, por isso apressem-se a reservar desde já o vosso lugar!

Na história, e após reunidas todas as opções de todos os envolvidos, o autor do blog recolherá aos seus aposentos e congeminará, com base naquilo que lhe foi dado por vocês, o próximo capítulo e a vossa próxima provação.

As decisões de cada um dos envolvidos deverão ser dadas a conhecer por comentário.

Para efeitos de intrigas, conspirações ou, enfim, algo que se queira oculto de terceiros até determinada altura da história e que não se queira logo ser dado a conhecer publicamente, submetam um email para a conta de email mencionada acima.

Aguardamos as vossas respostas!