quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Capítulo II: Selecção factícia



Ainda entorpecidos pela comoção, e já com o velho fora de mira, os onze elementos do recém-ajuntado grupo lá foram saindo da inércia e reagindo, cada um ao seu modo.

O Pwfh indagava-se do porquê de os seus pés não se encontrarem em contacto com o solo.
A sua posição horizontal e em pleno voo estremunhava-o ainda mais.
E o que era aquilo que lhe embateu em cheio no queixo? "Seriam... nós de dedos?," inquiria-se o Pwfh, imediatamente antes de aterrar dolorosa e cabeçudamente no solo junto a um dos tentáculos do molusco avivendado.
Por cima da sua face e da poeira mal assente criada pela sua queda surgiu a alegre carranca da Anna.
"Voltas a fazer um remoque envolvendo o meu rabo e um qualquer utensílio de carpintaria e eu conto-te uma estória, meu menino," declamou a Anna com um dedo acusador colado ao nariz do Pwfh.
Soltando um combinado entre gritinho de espanto e lhano sorriso, a Anna deu um carinhoso beijo na testa do anão e seguiu numa execução fisioterapêutica do Hula do Rei Leão em direcção à choupana.
Com uma festa na ombreira da porta acompanhada de um "Bicho lindo", a rapariga desapareceu opacamente na escuridão da entrada.

"Estranha rapariga," pensava-se generalizadamente entre os que sobraram no exterior, tirando o Pwfh, que em vez de "estranha", adjectivava a Anna com algo bem mais brejeiro.

"Não sei se partilham desta minha opinião, mas julgo que devíamos tomar entre mãos uma acção em tudo semelhante àquela que aquela moça acabou de tomar. Ou seja, entrar naquela casa, quanto mais não seja por estarmos todos movidos pela curiosidade e desejarmos, no fundo, saber exactamente o que está aqui em decurso," discursou enfaticamente o Didelet que, pela altura em que terminou, já só se encontrava no jardim com uma adormecida Player1331.

Todos os restantes não haviam perdido tempo algum em avançar.
A promessa de um quentinho chá, a tal curiosidade que o Didelet apregoava e a desconfortável presença das duas criaturas do velho - especialmente a do imenso pássaro - formaram-se razões mais do que suficientes para que se progredisse.

O Pwfh havia-se elevado em três tempos do sobrado e seguido atrás da Anna, pontapeando a terra, balbuciando qualquer coisa num engrimanço só dele e soltando uma quantidade de gás flatulento suficiente para manter no ar um pequeno zepelim.

O Pato e a Mary Birth, sem que niguém percebesse muito bem como, já se encontravam longe do jardim e bem dentro da casa.

O Pete e a Cblues, como bons pseudo-apreciadores de chá, pseudo-encaminharam-se lado a lado para o interior do edifício.

O Man, esse, deu por si a ser soerguido por algo.
E "algo" era a descrição correcta.
Peles flácidas e escalvadas estigmatizavam-lhe a superfície reflectora.
Se o O Man tivesse olhos, estes estariam a implorar para serem cosidos a sangue frio.
"Que falta de classe e de bom senso," tagarelou o Tiagu para o espelho ensovacado debaixo do seu braço. "Deixar assim um espelho ao frio, para apanhar um resfriado. Tão pouco british destas gentes. Eu levo-o, meu caro."

O R2-D2 arrepiou caminho a passos confiantes, cantarolando entusiasticamente o tema principal do filme "Zorba, o Grego".
Um cântico que levou ao limite toda a estrutura molecular do O Man, que claramente ainda não tinha problemas suficientes a assombrá-lo.

Sentindo-se só, e de sobremaneira apatetado por estar a falar para o boneco, o Didelet apressou-se para a palhoça, fechando estrepitosamente a porta atrás de si.

A Player1331 escolheu precisamente esse instante para acordar, ainda a afogar o berro que a visão do Pato havia iniciado.
Ainda foram necessários alguns segundos para que ela desse conta que se encontrava esparramada de bruços no pavimento.
A sua primeira tentativa de arrimo foi acompanhada de uma fria e pegajosa sensação, sensação essa fruto de um frio e pegajoso tentáculo que se enrolava em torno da sua perna esquerda.
A Player1331 soltou novo berro e arrastou-se no solo para trás, movimento esse que, para além de a soltar com sucesso do apêndice do polvo-choupana, a levou a chocar de costas com o varano.
"Ele só te está a tentar levar para o seu interior, para ao pé dos teus amigos," afirmou o jovial varano.
"Eles não são meus amigos," articulou com o olhar na vertical a Player1331, "são... e tu és... Tenho sono. E cheira-me a bolachinhas."
"Sim, bolachinhas. E chá também, pelo que me constou. Tens o teu quinhão à tua espera. Eles já lá estão dentro. Devias ir andando, sem mais delongas."
A Player1331 olhou no sentido da casa. Viu o Pete a perscrutar à janela. Voltou a olhar para o varano. Viu o varano a sorrir de forma ainda mais ampla. Voltou a olhar para o Pete. E de novo para o varano.
"Bom, então acho que vou andando, não é? Não os quero deixar à espera mais do que o necessário," parolou incomodamente a Player1331, enquanto se dirigia em passo de caranguejo para o colmado.

A entrada da Player1331 na cabana coincidiu com um sonoro "PWIP!" lançado pelo desproporcionado pássaro.
Um "PWIP!" que soou em tudo semelhante a um "Irra! Até que enfim que eles se foram!"

Não foi com grande admiração que o grupo constatou que a casa, no seu interior, desafiava as leis da Física.
Pelo menos, da Física que se conhece.
Por dentro, o rústico casebre dava ares de ser bem maior do que o que aparentava do exterior.
Todos entraram directamente para uma enorme sala de estar. Exactamente a meio desta, crepitavam uns quantos toros numa lareira de proporções e detalhe épicos.
Se neste mundo existisse uma Inglaterra, dir-se-ia que a decoração interior da casa era muito, muito vitoriana.
Num dos sofás que ladeavam a extensa mesa central - no canapé mais próximo da lareira - encontrava-se, aparentemente, mais uma das criaturas mitológicas do velhote.
Sentada no quentinho, servida com um belo pires de natas, encontrava-se uma mulher-gato.
Ou uma gata-mulher.
Enfim: um Gato das Botas mas na versão feminina da coisa.
Uma Gata das Botas que todos sabiam apelidar-se de Anatcat.
Como é que cada um deles sabia o seu nome, isso era-lhes um mistério.
E da mesma forma que sabiam o epíteto da felina rapariga, tomaram nota de que tinham o conhecimento de cada um dos epítetos dos outros indivíduos do grupo.

"Não pensem mais nisso que não vale a pena. Fui eu que tomei a liberdade de vos colocar na cabeça os nomes dos restantes que vos acompanham. Assim, aceleramos um pouco mais as coisas e evitamos aquela situação sempre aborrecida de se apresentarem uns aos outros," revelou o velho, que se encontrava firmado na única poltrona na divisão, a poltrona que encabeçava o semicírculo de sofás.

Ninguém contestou esta projecção de poder do ancião, assim como ninguém contestou o facto de a Mary já se encontrar a inspirar as cinzas do soalho junto à laje da lareira.

"Anna. Onde... está... a... Anna?," espumejou o Pwfh entre um traque e duas bufas em si bemol.
"Ah, a espirituosa e doce Anna. Ela entrou aqui esbaforida a pregar que se estava a sentir imunda e que estava a precisar de tomar um bom banho. Deixei-a ir-se aprumar. Ela juntar-se-á a nós daqui a nada."
O Pwfh ainda impôs um passo irritado na direcção do único corredor que saía do compartimento.
O velho acenou para um dos sofás e enunciou calmamente: "Acalma-te, rapaz. Senta-te aí e relaxa um pouco."
E O Pwfh deu por si a soltar um perplexo "Mas o que..." e a sentar-se relaxadamente no sofá.

"Hum... tenho um tal de "Nojento" em mente, mas não estou a conseguir associar o nome a nenhum de nós. Quem é o Nojento?," perguntou o Didelet de por detrás de um dos assentos estofados.
"Ainda bem que perguntas. O Nojento é o senhor que vai entrar agora por ali," asseverou o velho, apontando para a janela à sua direita.

Através de uma ribombante explosão de vidro e lascas de madeira, a janela rebentou para dentro e o Nojento entrou em cena, chocando violentamente contra a parede oposta.
Impávido e sereno, o velhote esperou que a tropelia de pó e cascalho amainasse antes de aconselhar que "Provocar o Uasou não foi a mais sábia das decisões, Nojento. Ele é uma ave muito temperamental."
O Nojento nada disse, limitando-se a cuspir um dos caixilhos que se lhe havia atravancado na boca.

"Concluindo a réplica à tua questão, Didelet, o Nojento é, tal como ali a Anatcat, parte integrante do vosso montão. Era, até há bem pouco, o elemento em falta. Com ele, o círculo dos treze está agora completo." O velho pausou para esquadrinhar o renque de onde, supostamente, a Anna viria a surgir. "E enquanto a Anna não regressa do seu duche, podemos, talvez, ir bebericando um chá. Quando ela chegar, conto-vos tudo o que desejam e precisam de saber. Sentem-se, sentem-se. Cordon, traz-nos o chá, por favor."

Da ala, emergiu uma figura deveras sui generis.
Cordon, um hipopótamo bípede de pose aristocrata, ostentava um fardamento de mordomo. Para além de uma área e um volume matematicamente incalculáveis, Cordon apresentava ainda uma mui tratada e farfalhuda bigodeira por cima da mandíbula superior. É como se o paquiderme tivesse comido os Três Mosqueteiros e tivesse deixado de fora apenas o bigode do Aramis.
Na pata direita, transportava uma vasta bandeja prateada com um bule ao centro e mais de uma dezena de chávenas equitativamente distribuídas em seu redor.
Na pata esquerda, outra bandeja prateada mas de menores dimensões transportava um prato com uma pirâmide de bolachinhas equilibrada com grande mestria.
"Este é o Cordon, o meu auxiliar mor. Já tiveram, lá fora, a oportunidade de conhecer o Uasou, o Omell e o Bivaldi, do qual estão agora dentro. E não se preocupem com o facto de estarem dentro de um ser vivo. O Bivaldi não vos vai digerir nem nada que se pareça. Ele é um ser mágico. Está acima de necessidades básicas como o comer, o beber ou o dormir. Cordon, toma a liberdade de servir os nossos ilustres convidados."

Com um encolher de ombros, o massivo servente colocou a bandeja com as bolachinhas no centro da grande mesa.

A grande custo, o Nojento sentou-se na ponta do sofá mais próximo, ainda a limpar da roupa e do cabelo as puas e os estilhaços que sobejavam da sua entrada.

Do flanco oposto à janela, junto a uma estante composta com uma mini-biblioteca, o Pete pronunciou-se: "Por acaso não teria nada de Proust, não?"
"Julgo que sim. Vê aí na terceira prateleira a contar de cima, à direita," narrou o velho.
"Já vi. Não está cá nada."
"Vê outra vez."
"Não está cá nada. Já verif...," dizia o Pete, enquanto olhava abespinhado para a lomba do "À la Recherche du Temps Perdu" de Proust.
"Hum. Engraçado. Ia jurar que tinha corrido todos os livros desta fileira... Mas óptimo. Nunca se deve beber chá sem se ler uma boa folha," expôs o Pete, enquanto sacava do livro.

Nisto, entrou na divisão a Anna, envolta num imenso toalhão e com uma toalha enrolada em volta do cabelo. "Aaaaahhh, nada mais salutar do que um bom banho, daqueles com sais de banho e assim, para edificar de novo as forças. E vocês não vão acreditar, mas a banheira do velhote é enorme! Daquelas redondas e com espaço para toda a família. E mesmo assim consegui encher aquilo com mais espuma do que água," debitou incessantemente a Anna para uma plateia que se manteve sisuda.

O Pwfh tentou pular do sofá rumo à Anna.
"Quezílias agora não, por favor," exprimiu o velho que, com um gesto sereno, atarraxou o anão Seagalês ao enchumaço do assento. "Toma antes um chá. Que tal?"
O Pwfh ainda se convulsionou, mas sem qualquer efeito prático.
De estrebucho irrisório, o Pwfh resignou-se.
"O chá é uma paneleiragem para meninas e cabrestos. Tragam-me antes umas folhas de chá e uma mortalha."

Cordon deu a volta à mesa interpelando, um a um e cada um, sobre qual o chá que desejavam, deixando o grupo estupefacto com o facto de todos os diferentes chás estarem a ser servidos a partir do mesmo bule.
Magia era algo a que o grupo ainda não estava, claramente, habituado.

Com Anatcat já servida, o mordomo serviu aos restantes chás das mais diversas cores e sabores.
Chá preto.
Chá verde.
Chá branco.
Chá transparente.
Chá às bolinhas amarelo-torradas, para o R2-D2, que alegava ser essa a cor que a equipa da Hungria utilizava nos Jogos Sem Fronteiras.
Chá de alho, para o Pato.
Chá de limão, bem esquentado, para a Cblues, mais habituada - dizia ela - ao clima quente de Miami.
Chá de café, para o Pete.
Chá de Rooibos e Gingko Biloba para o desnudado Tiagu, que foi forçado, para muito lamento seu, a repetir quatro vezes o nome do seu pretensioso chá.
Chá de "Não sei, senhor mordomo, se já reparou que eu sou um espelho, não tenho boca, por isso deixe lá o chá, muito obrigado?" para o O Man.
Chá mon para a Mary, que se arredou de ao pé da lareira para a periferia de Cordon para receber deste a sua xícara.

"My God, mas que falta de gabarito. Cordon, onde está a minha colher de chá? Isto é uma colher de café," apontava cinicamente o Tiagu com a colher erguida.
"Sempre pode mexer o chá com isto," acentuou o R2-D2, estendendo um vibrador na direcção da desataviada socialite.
De túnica aberta, o R2-D2 exibia toda uma imensidão de artigos chineses emplastrados no forro.
Do vibrador, entoava uma melodia rica em obscenidades, uma melodia digna da Tourettice da própria Mary.
Chocado, o Tiagu recusou veementemente o brinde, mas não os orgasmos.
Quais orgasmos?
Ora, os três orgasmos que teve logo de seguida e apenas em trinta segundos, e que tentou, sem sucesso, disfarçar, apesar dos imensos esguichos que de si borbotavam para cima da pirâmide de bolachinhas.
Coincidência ou não, mais ninguém tocou nas bolachas depois disso.
E as digeridas até então foram mantidas a custo nos respectivos estômagos.

Cordon serviu uma última xícara de chá, sem que ninguém tivesse efectuado qualquer pedido nesse sentido.
Percebendo que o escopo era o velho, a Mary antecipou-se ao criado e agarrou na chávena. "Deixa estar, eu entrego esta. Escroto. Escroto! Pila pila c-c-coelhinhos de chocolate de leite!," anelou de permeio de um sorriso nervoso.
Sub-repticiamente, a Mary injectou no chá gramas de MD suficientes para drogar psicadelicamente uma manada inteira de búfalos.
"Isto deve chegar para o velho ficar com uma estrica jeitosa," pensou divertidamente para si mesma.
"Ora, muito obrigado, minha doce Mary. Muito simpático da tua parte," agradeceu o ancião ao receber a chávena das mãos de uma Mary de sorriso cúmplice.
Sorriso que se desfez quase de imediato quando o velho acresceu "E muito obrigado por já teres posto o "açúcar", querida. Mesmo ao meu gosto."

A Mary sentou-se encabulada junto de onde o O Man tinha sido depositado pelo Tiagu.
"Eu vi o que tu fizeste. Não foi bonito. E eu sou o teu pai," afirmou o O Man no seu tom Vaderesco.
Ou, pelo menos, foi isso que a Mary julgou ouvir.
De olhar desassisado e com as cinzas a começarem a bater, a Mary fitou o O Man e desbaratou um "Holly shit, damn, fuck, hell, fart, snail, pickle, jerk!"
De seguida, arremessou-lhe os sapatos e a xícara, aspirou o interior de um pequeno tubinho que trazia no bolso e colocou-se a dançar o twist junto, novamente, da lareira.

Com dois tragos bem dados no chá, o velho fez por não dar qualquer importância à forma de proceder da Mary e iniciou, lúcida e finalmente, o seu discurso.
"Permitam que, por fim, me apresente: o meu nome é Verni. Dou-vos o nome para que possam saber como se dirigirem a mim, embora nem eu nem o meu nome sejamos aqui a parte relevante. Aqui, o importante é vocês saberem quem são, porque o são e porque aqui estão. Para começar, o vosso aspecto. A vossa figura neste mundo mais não é do que a manifestação de como vocês gostariam de ser no vosso mundo. A vossa personalidade é uma mescla entre a personalidade julgada daquilo que aparentam e a vossa própria personalidade."
Todos se entreolharam.
Todos olharam em sincronia para o Tiagu.
Ninguém disse nada.
"A partir do momento em que tomaram consciência do vosso novo ser," continuou o velho, "o processo de assimilação do corpo em que agora se revêem foi quase imediato. Pode-se dizer que foi um período adaptativo quase instintivo. Aqui, vocês tornaram-se exactamente aquilo que aparentam."

O som do gorgolejo provocado pelo bebericar do chá por parte do Pete - o mesmo chá que lhe escorria para fora da garganta alanceada - encheu cavernosamente a sala quando o velho se emudeceu por mais uns breves momentos.

Sentindo que o velho estava a esconder algo, a Cblues tirou os óculos.
Como controladora de mentes, existia, para ela, sempre a possibilidade de o fervor de um momento subjugar o seu lado racional, e o seu controlo mental ser inconscientemente activado.
Os óculos eram o seu coador, a sua prevenção e protecção para segundos e terceiros.
A Cblues aguardou que o ancião estabelecesse contacto visual com ela e, sem que ninguém se apercebesse, tentou dominar a mente deste.
O velhote fitou-a durante um bocado, e depois esboçou um sorriso. "Precisas de alguma coisa, querida?," disse o velho para a Cblues, incólume perante a manipulação gorada desta.
Surpresa pela gritante imunidade do velho ao seu controlo, a Cblues propalou de forma desacomodada: "Quem? Eu? Nada, nada. Tenho é uma questão: porque é que estamos aqui mesmo? Hum, e Tiagu, cubra-se, por favor; é que já me está a ferir a visão periférica."
O Tiagu trejeiteou com desprezo a clara falta de grife e finesse da Cblues embora, e ao mesmo tempo, sentisse uma quase irresistível vontade de lhe bater palmas pelo impressionante desempenho dela no papel que encenou frente ao velho.

"Porque estão vocês aqui? Esse é que é o busílis de toda esta conversa. E em boa verdade, meus amigos, essa é a única pendência para a qual eu não possuo resposta. Sabem, o Universo desdobra-se de formas infinitamente misteriosas. E eu sou meramente o agente dele que, por estas partes, as sabe interpretar. Tenho uma falível concepção de qual o vosso desígnio nestas paragens, mas não vos quero induzir em erro. Longe de mim dar-vos uma ideia apenas para que esta se prove, mais tarde, como errada."
A desconfiança sobre se o velho estaria a dizer a verdade ou não era global.
Com mais um sorriso, o velhote aditou: "Sei o que estão a pensar, mas vejam a coisa deste prisma: seria muita presunção da minha parte eu assumir que sei tudo, não acham? Prefiro ajuizar que tenho sempre uma vaga noção das coisas."
O velho parou para sorver mais um gole de chá.
"Sei, no entanto, de alguém que grassa - assim presume ele - saber tudo. Mas já voltaremos a ele. Daqui a pouco. Por agora, quero esclarecer mais uns quantos pontos."

"Este chá é gourmet?," interrompeu o Tiagu, agradado de forma microscopicamente notória pela infusão que lhe foi servida.
"Não, Tiagu. Não é," suspirou o velho em palavras cansadas.
A resposta negativa incomodou o Tiagu de forma macroscopicamente notória, como era bem visível no ataque de possidonite que se lhe acometeu.
Um ataque que lhe descaiu ainda mais os sacos do Pingo Doce a que chamava seios.

Esta última imagem aterradora relembrou o O Man da repulsa atroz que sentiu no trajecto que executou na companhia forçada do Tiagu.
E do projecto que planeou levar a cabo.
"Verni, diga-me o ilustre de sua justiça: seria possível criar um fundo ecuménico de solidariedade para pessoas com pele flácida? O dinheiro pode vir da União Europeia," apiedou o O Man.
"União Europeia? Oh, meu caro, nós aqui não temos nada disso. Fazemos assim: eu coloco-lhe aqui esta bolsinha de couro pendurada nesta talha da sua moldura, e quem quiser pode colocar lá uma ou outra divisa de valor cambial. Moedinhas, vá. Esse pode ser o seu fundo de de solidariedade. O que acha?"
A face envidraçada do O Man manteve-se impávida, mas dava para perceber que o espelho estava ligeiramente amuado.

"Bom, e se calhar antecipo-me já às vossas próximas interrogações e aduzo-vos já as respostas," prorrogou o velho. "Vocês não se materializaram na minha propriedade. Eu não moro aqui. Aliás, a bem ver, eu não habito em lado algum. Podem considerar-me como que um errante. Eu simplesmente acompanho os pontos de "recepção" de entidades provindas de outros mundos. Sou eu que as inicio às suas novas realidades. Esse foi o papel que me foi confiado por quem gere este plano de existência. E enquanto que os pontos de "recepção" podem ser muitos e diversamente localizados, pontos de "envio" só existe um e determinadamente fixo. Se quiserem regressar ao vosso mundo de origem, é a este ponto que se devem dirigir. Mas mais vos digo: se vocês aqui estão, não é por um mero acaso. Todo e qualquer ente que aqui brota, brota porque alguém o convocou. Vocês foram todos convocados. Quase ao mesmo tempo e num mesmo ponto de "recepção". E convocados por um propósito. Vocês estão aqui para algo. Algo ao capricho de alguém. O quê e quem, essa é a tal resposta que não vos consigo ministrar. Eu não, mas, e como já tinha referido, conheço alguém que vos pode levar mais além no entendimento da vossa senda. É a ele que vos vou endereçar. Agora: têm mais alguma inquirição que me queiram colocar? Pensem bem, pois assim que eu vos puser no vosso caminho eu não estarei lá para vos ajudar..."



O Narrador procura saber:

Têm mais alguma questão de última hora a colocar ao ancião?

Submetam a vossa decisão por comentário ou, caso não pretendam dar a conhecer a vossa intenção a terceiros, submetam por email.
São livres de optar por não fazer nada.

Para efeitos de intrigas e conspirações, o email contameumaestoria@gmail.com permanece sempre ao vosso dispor.

22 comentários:

anatcat disse...

rotfl

Anatcat -» vai enviar mail

tiagugrilu disse...

Isto está a assumir proporções seriamente épicas. Gostei muito. Espero que consigamos não desistir desta ideia até termos uma verdadeira estória, com princípio, meio e fim.

Vou mandar mail. Abraço

PWFH disse...

Concordo ... ÉPICO !!! Vou mandar email.

grassa disse...

E ainda vamos no início...

anatcat disse...

ofereço-te hoje excepcionalmente o meu pires de natas, ou empresto-te as botas...

ápi ron to you... :)

player1331 disse...

Grassa até quando é que podemos dar a resposta? :D é que ando mais ou menos a dormir xD

grassa disse...

Quando quiseres.

Se colocarmos um sentido de urgência nesta coisa, ela é capaz de sair piorzinha.

Convém é não deixarmos cair no oblívio, senão o interesse também decresce...

tiagugrilu disse...

Quem é que caíu no oblívio? Opá, porque é que sou sempre o último a saber das novidades...?

Mas tá melhorzinha ou foi para o hospital ?

grassa disse...

Tá boazinha.

E recomenda-se.

R2D2 disse...

Então pá?

PWFH disse...

Como diguia o Mogais Sagmento, isto mogueu!

grassa disse...

Não morreu nada, pá.

Simplesmente não tenho conseguido sentar-me de cabeça fresca para escrever.

Considerem isto escrita tântrica.
Aguentem o máximo que puderem.

A disse...

isto tá altamente... a sério.

R2D2 disse...

estava, A - estava...

A disse...

então?

tiagugrilu disse...

Tá meio mogto...

tiagugrilu disse...

Eu tenho uma questão de última hora a colocar ao Ancião:

"Ancião, quando é que é a merda da última hora?"

player1331 disse...

Grassa então n era esta segunda? xD

A disse...

escreve o terceiro capitulo!

player1331 disse...

Então Grassa? para quando o 3º capitulo? xD

grassa disse...

É que já deve estar mesmo, mesmo quase a sair...

Carlos disse...

Tão? Já tá ou ainda não?